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O futuro escreve-se em português


Há países que passam décadas à procura de uma vantagem competitiva, investindo milhões em consultoras, observatórios estratégicos, fóruns internacionais e relatórios de tendências, sem perceberem que, por vezes, aquilo que procuram já lhes pertence, apenas deixou de ser olhado com profundidade suficiente para voltar a ser reconhecido. Portugal é um desses casos. Enquanto discutimos, quase sempre em tom menor, a nossa escala, as nossas fragilidades, a nossa dependência externa e a nossa eterna condição periférica dentro da Europa, esquecemo-nos de que existem geografias invisíveis que não cabem nos mapas económicos tradicionais, e uma delas chama-se língua portuguesa, essa extraordinária arquitetura sentimental, cultural, histórica e humana espalhada por quatro continentes, capaz de unir realidades profundamente distintas através de algo muito mais poderoso do que tratados comerciais: uma memória comum, uma certa maneira de habitar o mundo, uma familiaridade emocional que resiste ao tempo, às ideologias e até às distâncias.


A lusofonia, que tantas vezes reduzimos a cerimónias protocolares, cimeiras discretas e discursos de ocasião, representa hoje mais de trezentos milhões de pessoas e um espaço económico que ultrapassa os dois biliões de dólares. Mas o mais importante talvez nem esteja nos números, porque os números, apesar de necessários, raramente explicam aquilo que verdadeiramente transforma o destino dos povos. O essencial está no facto de existir um eixo humano e linguístico que liga Lisboa a Luanda, Maputo, São Paulo, Praia ou Díli, num tempo em que o mundo procura precisamente aquilo que Portugal possui sem perceber totalmente o alcance do que herdou: capacidade de mediação, proximidade cultural, confiança relacional e acesso simultâneo à Europa, África e América do Sul.


Talvez o maior erro português tenha sido olhar para a diáspora apenas como memória afetiva ou reserva nostálgica, quando ela é, na verdade, uma das maiores infraestruturas estratégicas do século XXI. Não falamos apenas dos milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo, mas de redes de influência silenciosa, conhecimento acumulado, circulação de talento, pontes empresariais, científicas, culturais e tecnológicas que poderiam colocar Portugal numa posição singular num mundo fragmentado por blocos, tensões geopolíticas e guerras económicas. Enquanto outros países tentam construir influência através da imposição, Portugal poderia fazê-lo através da ligação. Mas para isso seria necessário abandonar de vez esta velha tradição portuguesa de desperdiçar aquilo que tem enquanto admira aquilo que os outros exibem.


Olhemos para África com honestidade intelectual e não apenas com paternalismos tardios ou discursos diplomáticos cuidadosamente esterilizados. Angola, Cabo Verde, Santo Tomé e Moçambique enfrentam dificuldades estruturais profundas, desde logo ao nível da organização administrativa, da capacitação institucional, da infraestrutura tecnológica e da coesão territorial. Mas há uma diferença fundamental entre um território saturado de sistemas antigos e um território ainda em construção, quem chega tarde ao passado pode chegar primeiro ao futuro. A ausência de infraestruturas legadas, que tantas vezes é apresentada como fraqueza, pode transformar-se numa vantagem decisiva na era da inteligência artificial. Países menos aprisionados por décadas de sistemas obsoletos têm hoje a possibilidade rara de implementar soluções digitais de raiz, desenhadas já para uma nova geração tecnológica, sem os custos brutais de transição que paralisam muitas economias desenvolvidas.


E é aqui que Portugal surge perante uma escolha histórica que talvez ainda não tenha percebido totalmente. Porque Portugal não é apenas um pequeno país europeu encostado ao Atlântico. Portugal é, potencialmente, uma plataforma de ligação entre continentes, um mediador natural entre mundos distintos, um espaço de confiança entre economias emergentes e instituições europeias. Nenhum outro país europeu possui simultaneamente a proximidade linguística, a herança histórica, a compreensão cultural e a legitimidade relacional para ocupar esse lugar com autenticidade. A pergunta, porém, permanece desconfortavelmente em aberto: estaremos preparados para pensar estrategicamente para além da pequena gestão do imediato, ou continuaremos presos à obsessão burocrática do curto prazo, enquanto outros descobrem o valor geopolítico daquilo que deixámos abandonado à inércia?


Porque a verdade, ainda que incómoda, é que o mundo mudou mais depressa do que Portugal mudou a forma de se imaginar a si próprio. Continuamos demasiadas vezes a falar como um país pequeno, quando talvez já tivéssemos condições para agir como uma ponte global. E as pontes, ao contrário dos impérios, não dominam ninguém. Ligam. Talvez esteja aí, precisamente aí, a maior vocação portuguesa do século XXI.


Por Miguel de Sousa Major, autor das obras literárias: "Viva la Vida. Viver com propósito", "Fragmentos. Uma breve história de vida", e "Nexus. O futuro das cidades”

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